celebremos as migalhas disso que chamamos amor embora eu saiba serem tristes nossas vestes...
noite feliz noite feliz
olhai por mim nisso que chamas fé embora eu não saiba acreditar mais em ti...
oh, senhor oh, senhor
sábado, 9 de dezembro de 2006
guadalupe aparicio
com o terço nas mãos tendo a fé solidificada por setenta e dois anos de inabalável devoção aquela senhora orava sobre o corpo do filho e soluçava e tremia e desesperava-se nas entranhas
sem entender os desígnios de deus.
segunda-feira, 27 de novembro de 2006
naranjo
passo após passo, sem titubear
alcance o final do corredor
tendo só a ti como companhia:
é preciso deixar as vozes quietas
em respeito ao pesar dos dias consumidos
porque por lá muitos passaram
mesmo que totalmente em vão e eis a sua vez de saber
às preces, a morte não escuta não.
quinta-feira, 16 de novembro de 2006
são pássaros noturnos cantando tristeza não são anjos não
são migalhas cuspidas na tua fé inabalável não são preces não
(padece em silêncio, pobre coitado)
deus nunca esteve aqui
sábado, 4 de novembro de 2006
chuva plantando nascentes águas encurtando o caminho por onde tristes mulheres seguem destinos à margem
dum rio de vestes escuras
(imagem de susannah baker)
quinta-feira, 26 de outubro de 2006
sob o jugo do outono rogarei por vós até o fim, deus triste sem que precise do teu perdão (minhas mãos nasceram sujas de sol)
terça-feira, 17 de outubro de 2006
deus tinha um hálito forte o peito peludo as mãos enrugadas e sujeira debaixo das unhas
deus era pai invadindo-lhe o quarto naquelas madrugadas sem data que a memória não soube apagar
deus gozava no seu rosto apertava suas coxas sussurrava ao seu ouvido chamando-lhe de filha
(deus não existiu -
era uma farsa vestida de nunca mais
era um refúgio repleto de nojo
- um mundo desnudado de amor)
suas preces não foram atendidas e seus gritos ocos, de tão mudos que eram
pelos olhos medrosos da mãe
sequer foram notados
sábado, 7 de outubro de 2006
rogo por ti e só por ti (abandono o peso de deus) aos espíritos que clamam perdão engolidos pela quietude
da fundura do rio
domingo, 1 de outubro de 2006
este resto de prece que agora deixo aos teus pés agarra-o com fervor é teu único caminho tu, a quem a solidão mete medo tu, que preferes crer ao final não estares só
terrivelmente só
domingo, 17 de setembro de 2006
eduardo naranjo
tuas mãos têm a idade do medo trancadas por dentro da fé colecionam quinquilharias limpam a poeira dos quadros viram as páginas dessa história envelhecendo de hora em hora apegadas ao que ficou preso nas cores dum outro entardecer
são feitas de misericórdia, as tuas mãos atiram esmolas aos pedintes acenam esperança aos moribundos conduzem à luz os desesperados alimentam pacientemente os enfermos estancam o fluxo nervoso da dor mas não sabem afagar os anjos que escapam do céu ao anoitecer
(és o deus que me vigia os passos o bufão que me perdoa os erros a mentira que me preserva a sanidade o sopro de loucura que me suspende
nas preces ribeirinhas estrela cadente traz segredo para deus lembrar de nós que de joelhos escrevemos caminhos mata afora na penúria dessa vida
esmagada pela cidade grande
quinta-feira, 10 de agosto de 2006
CANÇÃO MURMURADA
creio nas primaveras creio no reverso da tua dor – quando do céu arrancas poesias –
creio nos outonos creio na esperança feita de chuva – são tuas as vestes que me trajam de sol –
segunda-feira, 31 de julho de 2006
magritte
quem és tu, poeta
escondido em palavras
temeroso
(teus olhos insones
não bastam)
.
curva-te, poeta
pelas contusões da tua alma
pagarás
(tuas preces caducas
desabaram)
.
sabes nada, poeta
das tripas o refúgio
encontrarás
(teus sonhos infantes
sepultados)
terça-feira, 18 de julho de 2006
chagall
ajoelha contempla escuta os espíritos lá do fundo do rio porque eles sabem de ti
porque eles sabem de ti
sábado, 8 de julho de 2006
patrice besso
eu vi a cara do tempo e soube dentro dos ossos que era hora de virar paisagem & saltar nas folhas em branco do meu caderno de desenho pra ser rio sorrindo peixes pra ser pedra estancando a dor pra ser libélula guardando silêncio
antes da primavera chegar
quarta-feira, 28 de junho de 2006
se o teu silêncio é a resposta às minhas preces e a tua indiferença a medida da tua benevolência
se a minha fé é a garantia da tua existência e os meus temores os alicerces do teu reino
de ti eu nada quero por ti eu nada faço sem ti eu me liberto e minhas sobras serão o teu teto
domingo, 25 de junho de 2006
desenhe um domingo abra o quarto dos brinquedos traga sorrisos e os sons da chuva junte-se aos segredos das formigas ao vôo das libélulas aos urubus que recortam as nuvens
porque ainda há tempo porque ainda é nascente
a esperança ribeirinha de belém do pará
sexta-feira, 16 de junho de 2006
ajoelhei-me para saber do silêncio,
as preces famintas de chuva
e esperançosas de rio.
*
tudo ao meu redor
estava menor antes
minha imensidão é a falta de ti.
*
o prenúncio dos meus mortos
é a sobrevida da primavera
que deságua longe daqui.
*
[meu deus pisa a relva com pés descalços
tem mãos frágeis que já não choram
&
muito medo de saber-se só]
segunda-feira, 12 de junho de 2006
eu só peço um momento de candura e imensidão pra acolher os meus medos e trazer de volta o rio de águas barrentas que um dia os pés do meu deus banhou
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Por quanto tempo mais, Senhor Essas águas levarão Pra longe daqui Tudo que eu amo?
Diz-me, Senhor Mesmo que em silêncio Pois eu preciso de um sinal Que me erga e me faça crer
Eu queria redenção E você trouxe abandono Eu queria esperança E você trouxe rancor
Por quanto tempo mais, Senhor Haverei de ser esse arremedo Essa fratura exposta ao nada Esse eco tragado pelo vazio?
Diz-me, Senhor Mesmo que em desgraça Pois eu preciso de um momento Que me arranque daqui
Eu queria amor E você trouxe desprezo Eu queria quietude
E você trouxe solidão
sexta-feira, 26 de maio de 2006
a lua sabe do silêncio
o silêncio sabe de ti
da tua alma
dos teus segredos
dos teus medos
das tuas ilusões
e das brincadeiras que um dia teus filhos
brincarão
mas tu ainda esperas
por esse deus que só traz abandono e miséria
por esse deus que descansa enquanto sofres
por esse deus que não registra os mortos
nem os vivos
porque escreve por linhas tortas
e ignora a dor
dos filhos teus
que dele os são
também.
segunda-feira, 22 de maio de 2006
PRECE DA PRIMEIRA AURORA
naquele quarto, esquecia o medo era criança demais pra ser notado achava que deus tinha ouvidos cheios de cera e enormes olhos de vidro
rabiscava palavras que antecediam murmúrios seus dedos acolhiam pequenos lamentos frágeis círculos na arte de sonhar mundos e cores que ninguém sabia
tinha brinquedos dos quais jamais se separava forte-apache, autorama, fura-fura todas as árvores do fundo do quintal e os bichos imaginários feitos de nuvens
naqueles dias a infância chegava cedo antes mesmo das sombras que o sol trazia não havia desamor nem desespero e não se morria dia após dia