domingo, 17 de setembro de 2006

eduardo naranjo
tuas mãos têm a idade do medo
trancadas por dentro da fé
colecionam quinquilharias
limpam a poeira dos quadros
viram as páginas dessa história
envelhecendo de hora em hora
apegadas ao que ficou preso
nas cores dum outro entardecer


são feitas de misericórdia, as tuas mãos
atiram esmolas aos pedintes
acenam esperança aos moribundos
conduzem à luz os desesperados
alimentam pacientemente os enfermos
estancam o fluxo nervoso da dor
mas não sabem afagar os anjos
que escapam do céu ao anoitecer

(és o deus que me vigia
os passos
o bufão que me perdoa
os erros
a mentira que me preserva
a sanidade
o sopro de loucura que me suspende
a vida)

6 comentários:

Sol disse...

Será que os anjos querem afago, ou simplesmente a liberdade? Psiu.. Fale baixo... os anjos têm medo do afago. Se ficarem para o afago não mais poderão ver as cores da noite.

Fernando Palma disse...

"a idade do medo"

Aqui é bom também!

Claudio Eugenio Luz disse...

Meu caro, só a abertura já estaria perfeito! Um dos poemas mais tocantes e profundos que já li.

hábraços

turista disse...

"a mentira que me preserva
a sanidade"...perfeito, querido

Ivã Coelho disse...

Passos, erros, sanidade, vida: constuindo um mundo que parece não ter fim.

Belos, belo.

Fugu F. disse...

Belos, belos, belos! Belos poemas e preces afiadas. Enfim, um deus que nos convida a pensar ...