sábado, 17 de março de 2007


preces caducas
vagueiam
céu oco
de azul-resto
ruminando
esperança
imagem de ada rosa rivera

domingo, 4 de março de 2007


cada estrela guarda em si uma prece
que a água barrenta dos rios
silenciosamente ora
compadecida dos homens sem fé
imagem de jose "tonito" rodriguez

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

ao claudio eugenio luz

sobrevivia às noites estreladas bem distante das ruas do seu vilarejo desde que ali chegou a luz vinda da cidade grande. seguia um ritual simples em seus gestos levando às mãos ao peito para sentir a angústia do coração enquanto fixava os olhos no horizonte para agarrar-se aos restos de fé e inventava dentro da cabeça crianças brincando junto aos pirilampos. era assim que rumava ao igarapé embrenhado lá no meio da mata para ouvir o coaxar encantado dos sapos fazer das preces que aprendera com a mãe um cadinho, na esperança de que deus se desocupasse dos homens e pudesse atender ao seu único pedido levando pra todo sempre aquelas luzes dali.

imagem de escher


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007



escuta as lamúrias que vêm desse rio
trazendo sombras das preces de outrem
elas falam numa língua antiga
que abortou as pegadas da primeira aurora

observa caírem as tuas súplicas
feito lágrimas nuas à margem do escapulário
elas imploram por um instante de paz
que não seja um suspiro amortalhado

domingo, 21 de janeiro de 2007

eduardo naranjo
pro rubens da cunha
enterra teus mortos
na encosta onde o poente
afunila a amargura do inverno:
eles descansarão em paz
sem tempo de chorar por ti

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

guadalupe aparício

teus fantasmas
estiveram aqui
antes de mim

domingo, 24 de dezembro de 2006

schiele


celebremos as migalhas
disso que chamamos
amor
embora eu saiba
serem tristes nossas vestes...

noite feliz
noite feliz

olhai por mim
nisso que chamas

embora eu não saiba
acreditar mais em ti...

oh, senhor
oh, senhor

sábado, 9 de dezembro de 2006

guadalupe aparicio

com o terço nas mãos
tendo a fé solidificada por setenta e dois anos
de inabalável devoção
aquela senhora orava sobre o corpo do filho
e soluçava e tremia e desesperava-se nas entranhas

sem entender os desígnios de deus.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006


naranjo
passo após passo, sem titubear
alcance o final do corredor
tendo só a ti como companhia:
é preciso deixar as vozes quietas
em respeito ao pesar dos dias consumidos
porque por lá muitos passaram
mesmo que totalmente em vão
e eis a sua vez de saber
às preces, a morte não escuta não.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006


são pássaros noturnos
cantando tristeza
não são anjos não

são migalhas cuspidas
na tua fé inabalável
não são preces não

(padece em silêncio, pobre coitado)

deus nunca esteve aqui

sábado, 4 de novembro de 2006


chuva plantando nascentes
águas encurtando o caminho
por onde tristes mulheres
seguem destinos à margem
dum rio de vestes escuras
(imagem de susannah baker)

quinta-feira, 26 de outubro de 2006


sob o jugo do outono
rogarei por vós até o fim,
deus triste
sem que precise do teu perdão
(minhas mãos nasceram sujas de sol)

terça-feira, 17 de outubro de 2006



deus tinha um hálito forte
o peito peludo
as mãos enrugadas
e sujeira debaixo das unhas

deus era pai
invadindo-lhe o quarto
naquelas madrugadas sem data
que a memória não soube apagar

deus gozava no seu rosto
apertava suas coxas
sussurrava ao seu ouvido
chamando-lhe de filha


(deus não existiu -
era uma farsa vestida de nunca mais
era um refúgio repleto de nojo
- um mundo desnudado de amor)

suas preces não foram atendidas
e seus gritos ocos, de tão mudos que eram
pelos olhos medrosos da mãe
sequer foram notados

sábado, 7 de outubro de 2006


rogo por ti
e só por ti
(abandono o peso de deus)
aos espíritos que clamam perdão
engolidos pela quietude
da fundura do rio

domingo, 1 de outubro de 2006


este resto de prece
que agora deixo aos teus pés
agarra-o com fervor
é teu único caminho
tu, a quem a solidão mete medo
tu, que preferes crer
ao final não estares só
terrivelmente só

domingo, 17 de setembro de 2006

eduardo naranjo
tuas mãos têm a idade do medo
trancadas por dentro da fé
colecionam quinquilharias
limpam a poeira dos quadros
viram as páginas dessa história
envelhecendo de hora em hora
apegadas ao que ficou preso
nas cores dum outro entardecer


são feitas de misericórdia, as tuas mãos
atiram esmolas aos pedintes
acenam esperança aos moribundos
conduzem à luz os desesperados
alimentam pacientemente os enfermos
estancam o fluxo nervoso da dor
mas não sabem afagar os anjos
que escapam do céu ao anoitecer

(és o deus que me vigia
os passos
o bufão que me perdoa
os erros
a mentira que me preserva
a sanidade
o sopro de loucura que me suspende
a vida)

quarta-feira, 6 de setembro de 2006


não sei rezar
as palavras
descrêem em mim

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

nas preces ribeirinhas
estrela cadente traz segredo
para deus lembrar de nós
que de joelhos escrevemos
caminhos mata afora
na penúria dessa vida

esmagada pela cidade grande

quinta-feira, 10 de agosto de 2006


CANÇÃO MURMURADA

creio nas primaveras
creio no reverso da tua dor
– quando do céu arrancas poesias –

creio nos outonos
creio na esperança feita de chuva
– são tuas as vestes que me trajam de sol –

segunda-feira, 31 de julho de 2006


magritte
quem és tu, poeta
escondido em palavras
temeroso
(teus olhos insones
não bastam)
.
curva-te, poeta
pelas contusões da tua alma
pagarás
(tuas preces caducas
desabaram)
.
sabes nada, poeta
das tripas o refúgio
encontrarás
(teus sonhos infantes
sepultados)