nas preces ribeirinhas estrela cadente traz segredo para deus lembrar de nós que de joelhos escrevemos caminhos mata afora na penúria dessa vida
esmagada pela cidade grande
quinta-feira, 10 de agosto de 2006
CANÇÃO MURMURADA
creio nas primaveras creio no reverso da tua dor – quando do céu arrancas poesias –
creio nos outonos creio na esperança feita de chuva – são tuas as vestes que me trajam de sol –
segunda-feira, 31 de julho de 2006
magritte
quem és tu, poeta
escondido em palavras
temeroso
(teus olhos insones
não bastam)
.
curva-te, poeta
pelas contusões da tua alma
pagarás
(tuas preces caducas
desabaram)
.
sabes nada, poeta
das tripas o refúgio
encontrarás
(teus sonhos infantes
sepultados)
terça-feira, 18 de julho de 2006
chagall
ajoelha contempla escuta os espíritos lá do fundo do rio porque eles sabem de ti
porque eles sabem de ti
sábado, 8 de julho de 2006
patrice besso
eu vi a cara do tempo e soube dentro dos ossos que era hora de virar paisagem & saltar nas folhas em branco do meu caderno de desenho pra ser rio sorrindo peixes pra ser pedra estancando a dor pra ser libélula guardando silêncio
antes da primavera chegar
quarta-feira, 28 de junho de 2006
se o teu silêncio é a resposta às minhas preces e a tua indiferença a medida da tua benevolência
se a minha fé é a garantia da tua existência e os meus temores os alicerces do teu reino
de ti eu nada quero por ti eu nada faço sem ti eu me liberto e minhas sobras serão o teu teto
domingo, 25 de junho de 2006
desenhe um domingo abra o quarto dos brinquedos traga sorrisos e os sons da chuva junte-se aos segredos das formigas ao vôo das libélulas aos urubus que recortam as nuvens
porque ainda há tempo porque ainda é nascente
a esperança ribeirinha de belém do pará
sexta-feira, 16 de junho de 2006
ajoelhei-me para saber do silêncio,
as preces famintas de chuva
e esperançosas de rio.
*
tudo ao meu redor
estava menor antes
minha imensidão é a falta de ti.
*
o prenúncio dos meus mortos
é a sobrevida da primavera
que deságua longe daqui.
*
[meu deus pisa a relva com pés descalços
tem mãos frágeis que já não choram
&
muito medo de saber-se só]
segunda-feira, 12 de junho de 2006
eu só peço um momento de candura e imensidão pra acolher os meus medos e trazer de volta o rio de águas barrentas que um dia os pés do meu deus banhou
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Por quanto tempo mais, Senhor Essas águas levarão Pra longe daqui Tudo que eu amo?
Diz-me, Senhor Mesmo que em silêncio Pois eu preciso de um sinal Que me erga e me faça crer
Eu queria redenção E você trouxe abandono Eu queria esperança E você trouxe rancor
Por quanto tempo mais, Senhor Haverei de ser esse arremedo Essa fratura exposta ao nada Esse eco tragado pelo vazio?
Diz-me, Senhor Mesmo que em desgraça Pois eu preciso de um momento Que me arranque daqui
Eu queria amor E você trouxe desprezo Eu queria quietude
E você trouxe solidão
sexta-feira, 26 de maio de 2006
a lua sabe do silêncio
o silêncio sabe de ti
da tua alma
dos teus segredos
dos teus medos
das tuas ilusões
e das brincadeiras que um dia teus filhos
brincarão
mas tu ainda esperas
por esse deus que só traz abandono e miséria
por esse deus que descansa enquanto sofres
por esse deus que não registra os mortos
nem os vivos
porque escreve por linhas tortas
e ignora a dor
dos filhos teus
que dele os são
também.
segunda-feira, 22 de maio de 2006
PRECE DA PRIMEIRA AURORA
naquele quarto, esquecia o medo era criança demais pra ser notado achava que deus tinha ouvidos cheios de cera e enormes olhos de vidro
rabiscava palavras que antecediam murmúrios seus dedos acolhiam pequenos lamentos frágeis círculos na arte de sonhar mundos e cores que ninguém sabia
tinha brinquedos dos quais jamais se separava forte-apache, autorama, fura-fura todas as árvores do fundo do quintal e os bichos imaginários feitos de nuvens
naqueles dias a infância chegava cedo antes mesmo das sombras que o sol trazia não havia desamor nem desespero e não se morria dia após dia