segunda-feira, 2 de julho de 2007


não escapou ao anoitecer

e dos pirilampos

apenas lembranças

que levaria para nunca mais
imagem de mena brito

sábado, 26 de maio de 2007

da série preces inominadas

acocorado diante da casa
vê a si mesmo criança
e rememora o pai-nosso
que não cessa de brotar
lágrimas vestindo solidão

a vida segue longa
sobre seus ombros
as amarguras do tempo
metrificam os fantasmas das perdas
esvaziando o sentido de estar ali

e quando o sonho chegar
estarão seus olhos
fechados
distantes demais
do alvorecer

terça-feira, 8 de maio de 2007


é úmido este chão margeado pelo rio
por onde hei de seguir meu destino
(estou só entre meus mortos)

abraça-me antes do atardecer
em silêncio
pois a fé caducou despida, mãe

e da vida
guardo somente um terno de pássaros
que descansam sob o luar.
imagem de Oswaldo Guayasamín

quinta-feira, 19 de abril de 2007


os homens do lado de lá

entristecem o sonho da margem de cá

e não rezam

e não sabem mais escutar a quietude

das águas,

pedintes de sol.

terça-feira, 3 de abril de 2007


aos que te contemplam dás o perdão
eu encarno a culpa daqueles que te blasfemam
são migalhas as promessas feitas em teu nome
os que de ti precisam desconhecem os segredos do sol

sábado, 17 de março de 2007


preces caducas
vagueiam
céu oco
de azul-resto
ruminando
esperança
imagem de ada rosa rivera

domingo, 4 de março de 2007


cada estrela guarda em si uma prece
que a água barrenta dos rios
silenciosamente ora
compadecida dos homens sem fé
imagem de jose "tonito" rodriguez

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

ao claudio eugenio luz

sobrevivia às noites estreladas bem distante das ruas do seu vilarejo desde que ali chegou a luz vinda da cidade grande. seguia um ritual simples em seus gestos levando às mãos ao peito para sentir a angústia do coração enquanto fixava os olhos no horizonte para agarrar-se aos restos de fé e inventava dentro da cabeça crianças brincando junto aos pirilampos. era assim que rumava ao igarapé embrenhado lá no meio da mata para ouvir o coaxar encantado dos sapos fazer das preces que aprendera com a mãe um cadinho, na esperança de que deus se desocupasse dos homens e pudesse atender ao seu único pedido levando pra todo sempre aquelas luzes dali.

imagem de escher


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007



escuta as lamúrias que vêm desse rio
trazendo sombras das preces de outrem
elas falam numa língua antiga
que abortou as pegadas da primeira aurora

observa caírem as tuas súplicas
feito lágrimas nuas à margem do escapulário
elas imploram por um instante de paz
que não seja um suspiro amortalhado

domingo, 21 de janeiro de 2007

eduardo naranjo
pro rubens da cunha
enterra teus mortos
na encosta onde o poente
afunila a amargura do inverno:
eles descansarão em paz
sem tempo de chorar por ti

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

guadalupe aparício

teus fantasmas
estiveram aqui
antes de mim

domingo, 24 de dezembro de 2006

schiele


celebremos as migalhas
disso que chamamos
amor
embora eu saiba
serem tristes nossas vestes...

noite feliz
noite feliz

olhai por mim
nisso que chamas

embora eu não saiba
acreditar mais em ti...

oh, senhor
oh, senhor

sábado, 9 de dezembro de 2006

guadalupe aparicio

com o terço nas mãos
tendo a fé solidificada por setenta e dois anos
de inabalável devoção
aquela senhora orava sobre o corpo do filho
e soluçava e tremia e desesperava-se nas entranhas

sem entender os desígnios de deus.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006


naranjo
passo após passo, sem titubear
alcance o final do corredor
tendo só a ti como companhia:
é preciso deixar as vozes quietas
em respeito ao pesar dos dias consumidos
porque por lá muitos passaram
mesmo que totalmente em vão
e eis a sua vez de saber
às preces, a morte não escuta não.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006


são pássaros noturnos
cantando tristeza
não são anjos não

são migalhas cuspidas
na tua fé inabalável
não são preces não

(padece em silêncio, pobre coitado)

deus nunca esteve aqui

sábado, 4 de novembro de 2006


chuva plantando nascentes
águas encurtando o caminho
por onde tristes mulheres
seguem destinos à margem
dum rio de vestes escuras
(imagem de susannah baker)

quinta-feira, 26 de outubro de 2006


sob o jugo do outono
rogarei por vós até o fim,
deus triste
sem que precise do teu perdão
(minhas mãos nasceram sujas de sol)

terça-feira, 17 de outubro de 2006



deus tinha um hálito forte
o peito peludo
as mãos enrugadas
e sujeira debaixo das unhas

deus era pai
invadindo-lhe o quarto
naquelas madrugadas sem data
que a memória não soube apagar

deus gozava no seu rosto
apertava suas coxas
sussurrava ao seu ouvido
chamando-lhe de filha


(deus não existiu -
era uma farsa vestida de nunca mais
era um refúgio repleto de nojo
- um mundo desnudado de amor)

suas preces não foram atendidas
e seus gritos ocos, de tão mudos que eram
pelos olhos medrosos da mãe
sequer foram notados

sábado, 7 de outubro de 2006


rogo por ti
e só por ti
(abandono o peso de deus)
aos espíritos que clamam perdão
engolidos pela quietude
da fundura do rio

domingo, 1 de outubro de 2006


este resto de prece
que agora deixo aos teus pés
agarra-o com fervor
é teu único caminho
tu, a quem a solidão mete medo
tu, que preferes crer
ao final não estares só
terrivelmente só